Como o bom senso nos atrapalha na compreensão da ciência e do universo

Bom Senso em pílulas

Bom senso – Wikipedia: define a capacidade média que uma pessoa possui, ou deveria possuir, de adequar regras e costumes à determinadas realidades, e assim poder fazer bons julgamentos e escolhas.

 Bom senso – Discurso do Método – Descartes: é a capacidade de bem julgar e de distinguir o verdadeiro do falso que é propriamente o que denominamos bom senso ou razão, é naturalmente igual em todos os homens.

É sempre bom ter bom senso, ainda que como notou Descartes, parece ser a coisa mais bem distribuída do mundo, todo mundo pensa ter o bastante. Mas devido a forma como o bom senso se formou, a partir de pressões evolutivas em um ambiente natural relativamente simples, ele pode atrapalhar nossa compreensão da realidade, em especial aquela mais profunda descoberta pela ciência.

Muitas das ferramentas cognitivas que a evolução nos dotou tem essa dificuldade básica, servem a um propósito limitado, nos permitir sobreviver melhor que os concorrentes e se defender do ambiente. Nessa função, o bom senso nos ajudou muito e podemos notar que ainda hoje faz um bom trabalho. Continuar lendo

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Como sabemos o que sabemos

Todos parecem concordar que falta educação científica em todos os níveis escolares, e que a falta dessa educação afeta todas as parcelas da população, e tem efeitos danosos nas escolhas que as sociedades fazem. Mas outro problema com a educação científica, mesmo quando ela está presente, é o foco, o que se ensina nesse sentido.

Parece que este é sempre o resultado do esforço da investigação científica, e quase nunca o processo ou o caminho para esse resultado. Isso faz com que mesmo quem tem acesso ao conhecimento científico receba apenas quadros prontos, verdades prontas do tipo “isso é assim, aquilo é assado”.

Mas a pergunta mais interessante, mais instigante, mais desafiadora é: como sabemos que é isso ou aquilo, assim ou assado? Como sabemos o que sabemos?

Isso fica bem claro em um tipo de comentário de leitores de notícias sobre ciência, em especial sobre novas descobertas da paleontologia e dos fósseis. É algo nesse padrão:

“Ah, esses cientistas querem sempre nos enganar, pegam um dente cariado qualquer do chão e ficam falando que era isso era, aquilo, fazia isso, fazia aquilo, como eles podem saber disso tudo? Charlatões! Eu não caio nessa!”. Continuar lendo

Filhos, premonições e probabilidades

filhos = preocupações.:-)

Estou escrevendo este texto sob o efeito de uma péssima noite, mal dormida, desagradável, terrível. Embora tenha me dado a idéia para o artigo, eu preferia não ter passado por isso. Dormi mal, acordei diversas vezes, senti angústia e peso no corpo, sensações desagradáveis de perigo iminente ou desgraças possíveis, realmente uma péssima noite.

Para entender esta noite, vou explicar as circunstâncias da mesma, entretanto aviso que será melhor compreendida por quem tem filhos. A meia noite e pouco, de sexta feira para sábado, minha filha me liga para avisar que está saindo, de São Paulo para a praia, de carro com o namorado. Sexta feira de Carnaval, estradas cheias, notícias na tela da TV sobre problemas em todas as estradas, e eu tenho de dizer, “legal, filha, boa viagem, tome cuidado, me avise quando chegar”, sem aparentar a preocupação real que me passa pela mente.

Não é, claro, a primeira vez que ela viaja, e não é, claro, a primeira vez que me preocupo com ela. Nestes 20 anos, diferentes preocupações em diferentes idades e por diferentes motivos, me assaltaram. É o ônus de ter filhos, mais que compensado pelas alegrias decorrentes do mesmo fenômeno, a paternidade..:-) Nunca me arrependi de ser pai, e essas alegrias são muitas e diversas (mais uma vez, quem tem filhos me entenderá melhor). Continuar lendo

Se a evolução é real, por que nenhum chimpanzé evoluiu até serem como nós?

Chimpanzé

Muitas perguntas/desafio de descrentes da evolução apresentam claras lacunas de conhecimento em relação ao que é e ao que não é a evolução. A pergunta/desafio acima, título deste artigo, é uma das mais repetidas, econtrada em quase todo artigo sobre a evolução, nos “comentários” dos leitores.

Esse engano sobre chimpanzés e seres humanos poderia ser desfeito com alguma leitura sobre o assunto e vou tentar resumir aqui a resposta a esta pergunta/desafio.

Primeiro, para que os símios como o chimpanzé ou gorila evoluíssem para uma nova espécie, seriam precisos os mesmos milhões de anos que nós levamos. O que significa que nenhum primata hoje vivo poderia “evoluir” para outra espécie. Espécies evoluem, não indivíduos. Nenhum chimpazé poderia “evoluir” até um ser humano, como nenhuma zebra poderia “evoluir” até um cavalo.

A pergunta/desafio, portanto, está errada. O que ela deveria na verdade perguntar (se é que deveria perguntar alguma coisa) seria, porque os ancestrais destes primatas, como os ancestrais do chimpanzé, não evoluíram em nossa direção. Continuar lendo

A Afiada Navalha da Ciência

Guilherme de Ockan

Uma das ferramentas lógico/racionais mais importante da ciência nem sempre é bem compreendida. Conhecida como Navalha de Occam (ou Ockam), essa ferramenta ganhou seu nome graças ao trabalho intelectual de um frade franciscano chamado Guilherme de Occam (1). Este frade é as vezes chamado de o “último pensador medieval”, e as vezes de “o primeiro pensador moderno” e ambas as afirmações são corretas em alguma medida.

A vida de Occam, mesmo sendo um frade franciscano, não foi fácil, e seu modo de pensar muito particular, e racional demais para o ambiente, rendeu diversas escaramuças com a Igreja e o Papa, e até uma excomunhão. Mas é mais lembrado hoje que o Papa que o excomungou, por mérito de sua mente brilhante.

De modo geral a Navalha de Occam é conhecida dessa forma:

“Entre duas explicações que igualmente satisfatórias de um fato, a mais simples deve ser a correta.”

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Apenas uma teoria

Teoria da Evolução

É recorrente a alegação dos que “descrêem” na teoria da Evolução que esta é “apenas uma teoria”. Isso em geral demonstra que os princípios básicos da ciência não estão claros na mente de quem apresenta essa restrição. Como é uma alegação bastante comum seria interessante analisar a mesma, em seus dois pontos principais: o que é uma teoria do ponto de vista científico, e qual o efeito em termos de confiabilidade que esta tem sobre o conhecimento em geral.

Usamos o termo “teoria” na vida diária como sinônimo de “palpite”. Minha teoria é que o mocinho vai ficar com a mocinha no final da novela. Minha teoria é que o culpado é o mordomo (ou o deputado, já que estamos no Brasil). Esse uso do termo “teoria” é legítimo, em se tratando de linguagem informal, leiga. Mas em termos científicos o nome que se dá a um palpite é “hipótese”.

Minha hipótese é que matéria atrai matéria na razão direta da massa e no inverso do quadrado das distâncias. Minha hipótese é que os continentes de algum forma se movem, o que provoca terremotos e separações que criam oceanos. Ambas as alegações acima atualmente são teorias, mas começaram como hipóteses científicas.

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