Apenas uma teoria

Teoria da Evolução

É recorrente a alegação dos que “descrêem” na teoria da Evolução que esta é “apenas uma teoria”. Isso em geral demonstra que os princípios básicos da ciência não estão claros na mente de quem apresenta essa restrição. Como é uma alegação bastante comum seria interessante analisar a mesma, em seus dois pontos principais: o que é uma teoria do ponto de vista científico, e qual o efeito em termos de confiabilidade que esta tem sobre o conhecimento em geral.

Usamos o termo “teoria” na vida diária como sinônimo de “palpite”. Minha teoria é que o mocinho vai ficar com a mocinha no final da novela. Minha teoria é que o culpado é o mordomo (ou o deputado, já que estamos no Brasil). Esse uso do termo “teoria” é legítimo, em se tratando de linguagem informal, leiga. Mas em termos científicos o nome que se dá a um palpite é “hipótese”.

Minha hipótese é que matéria atrai matéria na razão direta da massa e no inverso do quadrado das distâncias. Minha hipótese é que os continentes de algum forma se movem, o que provoca terremotos e separações que criam oceanos. Ambas as alegações acima atualmente são teorias, mas começaram como hipóteses científicas.

Embora se acuse a ciência e os cientistas de terem a “mente fechada”, é no ambiente das hipóteses que percebemos que isso simplesmente não é verdade. Hipoteticamente, cientistas podem criar quase tudo, e seguir a intuição, rasgos de imaginação, criatividade louca e descontrolada, etc (e o fazem constantemente). Mas depois é preciso passar para o próximo passo, comprovar a hipótese, para transforma-la em “teoria científica”.

Por melhor que pareça a hipótese original como explicação, por mais adequada, por mais “bela” que seja, não passará de hipótese enquanto não for posta a prova. E isso é feito através de uma das mais rigorosas ferramentas intelectuais já criadas pelo ser humano, o método científico. E este sim é rigoroso, restritivo, cuidadoso, extremamente detalhista e exigente. Apenas passando por este rigor todo é que uma evidência a favor da hipótese original será aceita.

Se uma hipótese acumular muitas evidências, dezenas, centenas, as vezes milhares, se sobreviver por longo tempo sendo atacada por todas as formas, se o conjunto dessas evidências formar um todo sólido, só então a hipótese passará a ser chamada de “teoria”. Teoria científica.

Muitos dos testes a que tem de sobreviver uma teoria são criados para demonstrar que está errada. Sim, opositores de uma hipótese criam testes em que, se o resultado for positivo, isso demonstrará que a hipótese está errada. É parte do processo ser atacada dessa forma, seja uma hipótese proposta por um leigo, ou por um pseudo-cientista, seja uma hipótese proposta por um ganhador de um Premio Nobel ou um cientista de renome. Quando defensores de “teorias” sem sentido ou pseudo-científicas reclamam de “excesso de rigor” contra suas alegações, parecem pensar que é só contra elas que o rigor é exercido. Estão, claro, enganados. O rigor é aplicado a todo conhecimento antes que este possa ser aceito como confiável, ou seja, considerado científico.

Boa parte das atuais teorias científicas tradicionais foram em seu início espantosas e difíceis de aceitar. A Teoria da Deriva dos Continentes, a Microbiologia, a Relatividade, etc, tiveram, como toda teoria hoje aceita, de fazer o mesmo sofrido e doloroso percurso de suportar as provas, experimentos, e verificação de previsões antes de serem aceitas. E recusas, e ataques, e experimentos “para provar que são tolices”, etc. A diferença é que sobreviveram a tudo e acabaram aceitas pelo volume de provas a seu favor.

Então, quando algo é uma “teoria científica”, ele é bem mais que um palpite, bem mais que uma explicação interessante, bem mais que uma “teoria” no sentido leigo do termo. É uma explicação solidamente baseada em um conjunto de dados, experimentos, replicação indepentende, previsões bem sucedidas, etc, que para ser refutada exigiria outro enorme conjunto de dados e experimentos, não apenas um vago “não acredito nisso”.

Até porque teorias científicas não são algo para se “acreditar”, são conclusões sólidas que devem ser aceitas, se não puderem ser refutadas.

Um ponto que precisa ser mencionado, mas que daria por si só outro artigo enorme, é a questão das correções que teorias sofrem de tempos em tempos. Um texto que deve ser consultado é A Relatividade do Errado, de Isaac Asimov, sobre como teorias se ajustam, mas para melhorar, refinar, não para serem substituídas completamente a cada minuto. (http://ateus.net/artigos/ceticismo/a_relatividade_do_errado.php)

O segundo ponto importante, agora que já se compreende melhor o que o termo “teoria” representa em ciência, é qual o efeito sobre a confiabilidade de uma teoria para as pessoas e para a ciência.

Boa parte do conjunto de conhecimentos científicos que se agrupa em uma teoria pode ser usado de forma prática, tecnológica, e o funcionamento destes desdobramentos se fundamenta no fato de que a maior parte desse conhecimento é real, válido. Entre algo que é alegado, mas não é científico, e algo que é alegado, mas é científico (no sentido restrito de ter sobrevivido ao rigor do método), a confiabilidade do segundo é superior. Isso deveria bastar para se compreender que as teorias científicas não são “apenas teorias”.

Por exemplo, a teoria do eletromagnetismo é confiável, e as equações de Maxwell, parte dessa teoria, são confiáveis, reais, válidas, ou as TVs, rádios, e computadores que usamos não funcionariam. As leis do movimento, da teoria da gravidade, devem ser reais ou o mais próximo disso, ou nem aviões, nem carros funcionariam. Muito menos satélites geo-estacionários que permitem a comunicação global por telefones celulares e redes mundiais de computadores.

E em se tratando de satélites, GPSs, etc, a Teoria da Relatividade deve ser real, verdadeira, ou a maior parte dela, ou estes satélites não funcionariam corretamente (relógios de satélites tem de se ajustar conforme o previsto pela teoria da relatividade, ou os GPSs dariam erros de posicionamento gigantescos).

Deixando então de lado por um instante a Teoria da Evolução, todo conhecimento, toda teoria científica, ou seja aquela que passou pelo rigor do teste do método científico, tem de ser o mais próximo da realidade, tem de ser o mais verdadeira possível, em sua maior parte, ou os sistemas que dela dependem não seriam possíveis.

Não se pode sentar a frente de um computador, e escrever para um fórum que “eu não acredito nas equações de Maxwell, e acho o eletromagnetismo uma furada”. Seria claro, mesmo para o mais ignorante sobre ciência e sobre teorias científicas, que é um tremendo contra-senso, usar o fruto da teoria eletromagnética para alegar que “não se acredita nela”. Se este usuário de computadores, que não acredita em eletromagnetismo, ainda por cima apresentasse uma “teoria alternativa”, sem nenhuma comprovação e sem que tenha passado pelo rigor do método, seria ainda mais irracional. Por exemplo, no lugar de ondas eletromagnéticas as TVs na verdade são mecanismos que capturam duendes extra-dimensionais telepatas, que emitem as imagens para a tela.

Ninguém em sã consciência trocaria a “explicação” científica, que sobreviveu a todo rigor do método, e que tem evidentes desdobramentos a nossa volta, e a partir da qual boa parte da tecnologia é construída, por uma teoria alternativa completamente sem evidências.

Voltando a evolução, parece ser este exatamente o caso dos que negam a teoria e se apegam a uma teoria mística, confortável e confortante, mas totalmente sem evidências – é assim porque deus quis (ou o desgn inteligente de quem não dizemos o nome..:-).

Nenhum biólogo nega a evolução, nenhum cientistas das diversas áreas que produzem evidências da evolução nega a evolução como fato (a ciência pode parecer formada por áreas distintas, mas todas elas se relacionam, são uma só na verdade). Claro que, como em todo campo de estudo científico, existem discordâncias pontuais sobre alguns problemas, por exemplo o mecanismo principal da evolução, se seleção natural, se seleção natural mais seleção sexual, se equilíbrio pontuado, se gradualismo, etc.

A evolução, a origem de um ancestral em comum, não se discute, não porque é “proibido”, uma “crença científica”, mas simplesmente porque não existem evidências contrárias que justifiquem uma discussão, e existem milhares de evidências a suportar a evolução. Os mecanismos envolvidos estão ainda sendo estudados, embora uma boa parte deles estejam bem claros.

Evidência genética no DNA, citada em um trecho do livro de Dawkins, O Rio que Saia do Éden:

“O “parágrafo” nos nossos genes que descreve a proteína chamada citocromo c tem 339 letras. Doze trocas de letras separam o citocromo c humano do citocromo c dos cavalos, nossos primos muito distantes. Apenas uma troca de letra no citocromo c separa os humanos dos macacos (nossos primos bastante próximos), uma troca de letra separa os cavalos dos jumentos (seus primos muito próximos) e três trocas de letras separam os cavalos dos porcos (seus primos um tanto mais distantes). Quarenta e cinco trocas de letra separam os humanos do levedo e o mesmo número separa os porcos do levedo. Não é surpresa que estes números sejam os mesmos, pois, à medida que subimos o rio que conduz aos humanos, ele reúne-se ao rio que conduz aos porcos muito antes de o rio comum a humanos e porcos se juntar ao rio que conduz ao levedo. ” Richard Dawkins.

Neste link tem uma explicação mais detalhada sobre o mapeamento do Citocromo C, e como ele permite construir uma “árvore filogenética” de cada espécie:

http://www.ehu.es/biomoleculas/proteinas/prot41.htm

Mas o mais importante é que, como a Teoria do Eletromagnetismo, a Teoria da Gravitação, a Teoria da Relatividade, a Teoria da Deriva dos Continentes, a Teoria Científica Sobre Qualquer Coisa, a Teoria da Evolução passou pelo rigor extremo do método, passou por experimentos, por coleta de dados (só os anos de pesquisa de Darwin são uma vida e seus dados ainda estão sendo estudados e ainda se descobre informação importante neles), por previsões bem sucedidas (sem conhecer o trabalho de Mendel, Darwin supôs, que um sistema de informação não analógico deveria estar no cerne da hereditariedade, trabalho feito por Watson e Crick com o DNA décadas depois), por uma enorme gama de confirmações em diferentes áreas, como a geologia, paleontologia, biologia, química, química molecular, física e até astrofísica (o tempo de vida do universo e do planeta são dados importantes para a evolução).

Se recusar “acreditar” na evolução, apenas com a “sensação de descrença” (ah, eu não posso acreditar nisso), é o mesmo que se recusar a “acreditar” no eletromagnetismo, na gravitação universal, na microbiologia, etc. É o mesmo que recusar todo avanço que esses conhecimentos permitiram a nossa espécie. É ser cego ao fato de que esse método, rigoroso e extremo, produziu maravilhas como a expectativa de vida de mais de 80 anos (no passado, 30 ou menos), satélites de comunicação, e toda sorte de informação que sustenta nossa civilização.

É um tipo de cegueira seletiva, que leva uma pessoa a usar computadores, ir ao médico, andar de avião, falar ao celular, e ao mesmo tempo ignorar o que cada uma dessas coisa é fruto do rigor e da confiabilidade dos conhecimentos produzidos de forma científica.

Se o método científico é “falho” ao verificar a validade da Teoria da Evolução, então ele deve ser falho em todas as outras teorias, e o celular e a TV não devem funcionar. Se ele é valido para testar estas teorias, teorias para as quais o celular e a TV são evidências, então ele também é válido para testar a Teoria da Evolução. E esta passou, com mérito, pelo teste do rigor desse método, em dezenas de áreas, e mesmo nos experimentos que foram criados para provar que estava errada.

Compreender o método científico, o rigor e o processo de validação deste, é mais importante para compreender a realidade da evolução, compreender que está é um fato, do que compreender a própria teoria. Eu não sei exatamente o que são as equações de Maxwell, nem como analisa-las para saber se são reais. Mas eu uso os frutos desse conhecimento, e percebo que não poderia ser assim se o eletromagnetismo não fosse, em sua maior parte, da forma como a ciência afirma.

O mesmo deve ser compreendido quanto a Teoria da Evolução. Mesmo que não se compreenda como realmente ela pode ser real, é preciso compreender que nossa mais poderosa ferramenta de validação, o método científico, tem sido aplicado a ela por mais de 150 anos, e ela tem sobrevivido, e se ampliado, por todo este tempo. Se compreender isso, compreende-se que não se pode “desacreditar” na evolução por ser “apenas uma teoria”.

Nada impede, como em qualquer área da ciência, que se demontre que a teoria está incorreta. Mas para fazer isso é preciso mais que descrença e fé, é preciso um volume de dados, provas, evidências, explicações, tão grande ou maior que o que existe a sustentar a teoria. E isso é algo que desespera os que são contra a evolução, pois simplesmente não existe nada disso. Apenas um vago desconforto com a realidade: somos animais como quaisquer outros (talvez um pouco mais arrogantes e pretenciosos).

Homero Ottoni

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