Filhos, premonições e probabilidades

filhos = preocupações.:-)

Estou escrevendo este texto sob o efeito de uma péssima noite, mal dormida, desagradável, terrível. Embora tenha me dado a idéia para o artigo, eu preferia não ter passado por isso. Dormi mal, acordei diversas vezes, senti angústia e peso no corpo, sensações desagradáveis de perigo iminente ou desgraças possíveis, realmente uma péssima noite.

Para entender esta noite, vou explicar as circunstâncias da mesma, entretanto aviso que será melhor compreendida por quem tem filhos. A meia noite e pouco, de sexta feira para sábado, minha filha me liga para avisar que está saindo, de São Paulo para a praia, de carro com o namorado. Sexta feira de Carnaval, estradas cheias, notícias na tela da TV sobre problemas em todas as estradas, e eu tenho de dizer, “legal, filha, boa viagem, tome cuidado, me avise quando chegar”, sem aparentar a preocupação real que me passa pela mente.

Não é, claro, a primeira vez que ela viaja, e não é, claro, a primeira vez que me preocupo com ela. Nestes 20 anos, diferentes preocupações em diferentes idades e por diferentes motivos, me assaltaram. É o ônus de ter filhos, mais que compensado pelas alegrias decorrentes do mesmo fenômeno, a paternidade..:-) Nunca me arrependi de ser pai, e essas alegrias são muitas e diversas (mais uma vez, quem tem filhos me entenderá melhor).

Mas ter filhos gera preocupação, isso é certo. E noites de preocupação e angústia, noites mal dormidas, sustos, despertar repentino, sensações desagradáveis, etc, etc.

Esta foi uma delas. Mais uma. Mas depois de tudo, as 7 da manhã de sábado o telefone toca e escuto minha filha dizer, “oi, pai, cheguei, está tudo bem, beijos”. E eu durmo a manhã toda, uma maravilha..:-)

Pensei neste artigo durante os períodos acordados desta noite, mas tive de fazer força para me lembrar disso depois de acordar. E tem sido sempre assim, esta noite será esquecida, vai desaparecer na memória, e semana que vem não vou mais me lembrar da mesma. Sei que tive outras noites assim, muitas, mas não consigo me lembrar de nenhuma específica, nem a data em que ocorreu.  É natural, é a forma como nossa mente funciona.

Existe, entretanto, uma condição, uma circunstância, com o potencial de tornar esta noite inesquecível, indelévelmente marcada na memória, a ferro e dor. Um evento que eu tenho dificuldade em descrever, ou mesmo de pensar sobre ele. Se algo acontecesse, realmente, com minha filha, esta seria uma noite que jamais sairia de minha memória. Seria “A NOITE” para o resto de minha vida, para todo o sempre.

Então, vamos tentar entender em que situações isso poderia ocorrer, qual a chance e quantas vezes isso deveria acontecer.

Todas as pessoas que tem filhos e filhas, pais e mães, se identificaram com o relato acima. Não se pode ser pai e mãe sem passar por isso (pelo menos para a maioria dos pais e mães psicologicamente sãos), e todos temos noites de preocupação, sobressalto, premonições que não se cumprem, etc.

Considerando que devem existir milhões de pais e mães, devem acontecer, todas as noites, centenas de milhares de episódios como os que descrevi. Milhões de pais e mães que acordam, se levantam, vão olhar o quarto dos filhos e filhas, voltam, imaginam “coisas”, tentam dormir, e só sossegam quando ouvem a voz de seus rebentos no dia seguinte, felizes e despreocupados.

Mas ao mesmo tempo, ainda que a maioria dos jovens liguem contentes e despreocupados para seus pais no dia seguinte, digamos 99,99% deles, há uma minoria, o 0,01%, que não o faz, que não liga no dia seguinte. Que tem problemas reais, que se ferem ou (tenho dificuldade até em escrever isso neste momento), morrem.

Estes não ligarão para os pais, que receberão outro tipo de telefonema, o pesadelo de todo pai e mãe no planeta.

A esta altura é fácil perceber que em diversos momentos essas duas situações vão se cruzar, um pai ou mãe com uma noite terrível, premonições e sentimentos de angústia, e uma notícia ruim real, que parece concretizar essas sensações.

Eu nunca tentaria convencer uma mãe, que “sentiu” que seu filho estava em perigo ou morto, que, “recebeu sua visita para se despedir durante a noite”, que isso não é real, que é apenas um erro de avaliação. Não é razoável tentar, não é justo tentar, não é gentil ou decente tirar esse conforto, ainda que mínimo, de uma mãe ou pai em dor profunda.

Mas, fora dessa situação extrema, é preciso entender que não se pode concluir pela realidade da “ligação mental pai e filho, mãe e filhos” apenas por relatos dessa natureza. Porque a probabilidade nos informa que são eventos que acontecerão diversas vezes, centenas ou milhares de vezes, por pura coincidência, devido ao universo de eventos em que ocorrem.

Se algo houvesse ocorrido com minha filha, eu teria motivos para pensar que “esta noite algo incomum aconteceu”, que de alguma forma minha mente e da minha filha estavam ligados, ou que de alguma forma eu fui capaz de “prever” o futuro, acontecimentos distantes, ou coisas do gênero. Eu, devido a natureza de minha mente humana, recordaria esta noite para sempre, esquecendo de todas as noites em que sensações idênticas me assaltaram, mas nenhum evento traumático ocorreu.

É assim que nossa mente funciona, para o bem e para o mal.

E eu estaria, claro, enganado. Enganado pela forma como minha mente funciona, enganado pela dificuldade em lidar com números grandes, universos de eventos, estatística e probabilidade. Todos os dias, todos os fins de semana, pais e mães vão dormir com o pensamento em seus filhos. Todos os dias, todos os fins de semana, filhos, adolescentes e jovens (e os não tão jovens) saem e vão para a balada, vão viajar, vão sair com amigos, em carros de amigos, vão beber, vão se divertir.

E todas as noites, todos os fins de semana, alguns pais e mães acordarão assustados,  angustiados, preocupados, ouvindo a voz de seus filhos e filhas. E alguns filhos e filhas vão se acidentar, sofrer ou até morrer todos os dias, todos os fins de semana.

E diversas vezes, esses eventos vão se cruzar, e novos e impressionantes relatos serão criados, e a coincidência, evidente, será descartada por explicações sobrenaturais e confortantes.

Ajustes – Conte os acertos, ignore os erros

Se minha noite terrível parecesse se confirmar no dia seguinte, como minha mente reagiria? Como eu lidaria com os detalhes do ocorrido?

Como todo mundo, provavelmente. Cada detalhe que parecesse se “encaixar” com minha noite, seria reforçado, cada detalhe que não se adequasse, seria esquecido. Pequenos eventos pareceriam importantes, grandes eventos seriam ignorados, até que o relato ficasse cada vez mais “ajustado”, mais impressionante, mais “belo”, em especial se eu acreditasse “nessas coisas”. Detalhes do acidente pareceriam ser “memórias” da noite, pensamentos que eu não tive pareceriam ter me ocorrido durante a angustiante noite, o relato se “ajustaria” ao ocorrido, e em pouco tempo eu teria um belo e coerente relato, quase perfeito.

E quem teria a coragem ou a crueldade de contestar ou discordar de uma mãe ou pai que perdeu o filho? Quem diria, “mas, veja, a hora não bate, o que sonhou não foi o que ocorreu, sua história não se ajusta com o que houve”, ou coisa parecida? Ninguém, claro. O ceticismo seria visto como maldade ou teimosia, e o relato se tornaria mais e mais perfeito, ajustado aos fatos de forma cada vez mais impactante.

Não há evidências de que uma mente possa se comunicar com outra diretamente. Nenhuma evidência. Se alguém contar uma “história impressionante”, pare e pense: no universo de eventos que envolvem este relato, qual a chance de ser apenas uma coincidência, somada a um desejo, honesto e legítimo, de ser especial (ou ter algo confortante para se apoiar), mais alguns ajustes inconscientes ao relato?

Com certeza encontraremos, no núcleo de cada relato anedótico, pessoal, algo semelhante a minha noite mal dormida e infernal.

Homero Ottoni

Estatísticas

Jovens são principais vítimas em acidentes de transito

Maior parte dos acidentes ocorre entre 18:00 e 06:00 (noite e madrugada)

46% dos acidentes de trânsito estão relacionados ao uso de alcool

A maioria dos acidentes ocorre nos finais de semana

http://www.correiodopovo.com.br/Noticias/?Noticia=98030

http://www.cisa.org.br/categoria.html?FhIdTexto=04238dabb7bd5608fda6bb23aed4ec1b&ret=&

Porcentagem de pais e mães que tem noites mal dormidas devido a preocupação com seus filhos

99,99%

(ok, este índice é um “chute” meu, não tenho dados reais sobre isso, mas acho que é um bom palpite..:-)

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