A França e o “saco de enfiar mulheres”

Burka-200x114A França proibiu o uso do véu por mulheres muçulmanas em locais públicos. Na verdade, proibiu o uso da burca, o famigerado “saco de enfiar mulheres” da cultura islâmica, pelo menos de parte dela, em locais públicos.

Essa proibição tem despertado críticas, muitas críticas, não apenas dos islâmicos afetados pela proibição (os homens, mais que as mulheres, que são quem tem voz ativa na comunidade islâmica), mas também, ou principalmente, de organizações ocidentais, de todas as nacionalidades, incomodadas com o “autoritarismo” da medida.

Confesso que entendo perfeitamente essa reação, pois eu mesmo “sinto” que há algo ruim em proibir uma pessoa de se vestir, ou agir, como deseja, em especial quando isso só deveria afetar a ela mesma.

Mas há algo mais nessa questão, algo que parece ser deixado de lado nessas críticas, esquecido por todos os críticos, e demorou para que eu mesmo percebesse esse aspecto.

Primeiro, como as sociedades ocidentais tem se comportado, agido, estes anos todos mais recentes, com o diferente, com a diversidade étnica, com os imigrantes? Sim, ocorreram problemas, e até conflitos, mas nunca estes se deram a partir de leis ou regras legais limitadoras de vestimentas.

Moças, jovens, mulheres e homens africanos têm andando pelas ruas de cidades européias com suas vestimentas étnicas, coloridas, diferentes, uma diversidade de padrões, sem que isso seja um problema. Cidadãos do oriente, e de lugares distantes, têm vindo e vivido na Europa, sem muitos problemas.

Todos, o que inclui os muçulmanos, recebem direitos e deveres comuns aos habitantes do local, podendo trabalhar, votar e ser votado, ser representados, ter voz em organizações e setores sociais, etc, etc, etc. Recebem seguro saúde, educação, moradia subsidiada, etc, etc.

Segundo, a partir de nossa visão ocidental, com sua separação igreja/estado, e sua noção de direito individual extrema e importante para nossa cultura, temos agido, com todos os problemas que conhecemos, no sentido de aceitar as novas culturas, se mesclar a elas, absorver o que têm de bom, e ao mesmo tempo fornecer novos conceitos e idéias que são boas para estas culturas, que acrescentam algo a elas.

É uma forma de xenofobia invertida pensar que “apenas” as culturas estrangeiras e imigrantes têm coisas “boas”, e tudo o que vem da nossa cultura é “ruim”.

Então o que há com o Islã, que tem criado tanta confusão e provocado leis desconfortáveis, como a que proíbe mulheres dentro de sacos nos locais públicos? Será que a responsabilidade única é da França, do ocidente, dos “malvados” cidadãos das repúblicas européias?

Vou propor um experimento mental, para ver como reagiríamos em uma situação parecida, se nossa reação seria realmente tomada como autoritária e injusta, ou uma forma de equilibrar forças naturalmente desequilibradas.

Vamos imaginar uma nação que tem recebido imigrantes por longa data, que chamaremos de “Bresil”. Com longa tradição de acolher pessoas diferentes, de diferentes culturas, essa nação se orgulha de absorver e aprender com estas novas pessoas e povos. O Bresil recebeu italianos, portugueses, japoneses, chineses, africanos, muitos africanos (sim, muitos como escravos, mas depois do fim da escravidão, o Bresil recebeu imigrantes africanos para viver com os bresileiros), etc, etc. Que se misturaram, aprenderam, ensinaram, cresceram.

Mas de uns tempos para cá um novo tipo de imigrante tem chegado ao Bresil. Chamaremos deOslamicos estes novos povos, e eles têm características únicas.

Primeiro, sua reação contrária à troca de conceitos é muito mais arraigada e mais rigorosa que as outras culturas. Sua base é religiosa, fortemente fundamentalista, que acredita que qualquer ajuste, mudança ou cessão é um pecado, e totalmente proibida por sua divindade.

Mesmo assim, respeitando as tradições e leis do Bresil, eles recebem os mesmos direitos e condições dos bresileiros. Eles recebem proteção, que não tem em seus locais de origem, garantias, que não tem em seus locais de origem, direitos, que não tem em seus locais de origem, e podem até votar e ser votado no sistema democrático vigente no Bresil.

Estão migrando porque as condições nos seus países de origem têm se deteriorado, possivelmente por sua própria cultura ser rígida e fundamentalista, dificultando o progresso e a melhora das condições de vida das pessoas, tendo um IDH dos menores do planeta. Em busca de uma melhora de vida, migram para países como o Bresil.

A única exigência dos países que recebem imigrantes é, com maior ou menor intensidade, que estes respeitem as leis do país que os acolhe, que se misturem, que colaborem, que em algum momento se tornem cidadãos deste novo país. Tem sido assim por décadas, mais de um século, e estes países tem se fortalecido com essa mistura, com a absorção de novos povos, idéias, culturas, etc.

Mas não está funcionado com os Oslamicos. Parte das exigências de sua divindade é manter a separação a qualquer custo. Manter seus costumes a qualquer custo. Manter sua cultura a qualquer custo. Mesmo no que conflita frontalmente com a cultura do país em que decidiram viver, devem manter esses preceitos. À força, se preciso, com violência, se necessário. Com o assassinato de cartunistas e escritores, em nome de deus.

Também é parte da crença cultural/religiosa dessa nova cultura que é seu dever sagrado transformar TODOS os outros povos e culturas, em réplicas da sua própria cultura.

Um aspecto importante desse comportamento fundamentalista é a vestimenta de mulheres, que devem viver dentro de sacos. Estes impedem a mistura, o contato, a familiarização, e violam um dos mais básicos componentes da psique humana, a necessidade de “ver” o rosto do outro, de ler suas emoções e intenções, seus desejos e sua confiabilidade. Nossa programação evolutiva para “ver” rostos, coisa que nos acalma e nos aproxima, simplesmente não ocorre com mulheres dentro de sacos.

Nesse ambiente complicado muitos dizem ser essa uma questão pessoal. Dizem que não devemos interferir, que o estado do Bresil não deve interferir, que se uma mulher deseja, escolhe, viver dentro de um saco, não há mal nisso, e ela deve ser respeitada.

Mesmo sabendo que anos, décadas, de abuso, submissão, doutrinação, etc, tornam pouco provável que o uso do saco de enfiar mulheres seja “voluntário”, muitos insistem que devem ser respeitados esses direitos, que uma cultura não deve interferir em outra, mesmo que esta outra declare, em alto e bom som, desejar interferir com qualquer cultura discordante, e transformar todas em uma réplica da sua própria, em nome de uma divindade imaginária.

Mas alguns bresileiros que pensam dessa forma descobriram alguns fatos preocupantes, que tem feito pensar, sem saber exatamente o que fazer, o que seria “certo”, dentro da opção democrática de sua cultura, frente ao risco de perder essa posição, de ter sua idéia de democracia destruída ou prejudicada. Onde cessa a tolerância, e se inicia a omissão perigosa.

Alguns dos dados que preocupam são, se a migração parar, ainda assim o país, Bresil, terá uma maioria Oslamica em 25 anos. Maioria, que vota e é votada. Se a migração continuar, ou se intensificar, em menos tempo, bem menos, haverá uma maioria Oslamica.

Uma maioria que só vota dentro de sua comunidade, obrigada pela cultura rígida e religiosa, a votar de acordo com os preceitos de seus lideres. Uma maioria que não tem apreço ou tradição pela idéia de democracia, de direitos individuais, de liberdade individual.

Uma maioria que, em 25 anos ou menos, decidirá que leis devem ser votadas, como por exemplo, leis de recato, que exigem véus e sacos de enfiar mulheres. Que decidirá se a “shuria”, lei religiosa Oslamica deve ser aplicada a Oslâmicos, no lugar da lei bresileira.

Como deve o estado bresileiro agir, dentro deste cenário? É razoável permitir que a tolerância democrática do estado bresileiro seja a fonte da destruição deste mesmo estado, ao permitir que uma cultura diferente, pouco tolerante, fundamentalista, fanática, impermeável a razão e a mudanças defina as regras e leis deste estado?

O que nós faríamos se leis pretendendo proibir o carnaval, a cervejinha de fim de tarde (o álcool é um pecado mortal e gravíssimo para os Oslamicos) estivessem sendo propostas, e uma maioria favorável a elas estivesse no poder? Se leis sobre blasfêmia estivessem sendo discutidas, sendo blasfêmia qualquer manifestação de fé contrária à “shuria”? Leis que determinassem que as leis bresileiras só valem para bresileiros, e não para Oslamicos, que respondem apenas à “shuria” (que determina coisas como, apedrejamento de mulheres infiéis e de pessoas pegas bebendo cerveja)?

Se eventualmente leis que aplicam a “shuria” para todos os cidadãos bresileiros, e não apenas oslamicos, fossem apresentadas, e devido à maioria Oslamica, tivessem a possibilidade de serem aprovadas?

Se isso parece muito distante aqui no “Bresil”, é outra a realidade na França. A projeção é mesmo de que em 25 anos esta seja um país de maioria Islâmica. Como devem agir os franceses, o estado francês, frente a essa possibilidade? Capitular? Se submeter à ditadura da maioria Islâmica?

Não há uma resposta simples ou fácil a essa questão. Mas há coisas que precisam ser ditas, analisadas, consideradas, pesadas. A dificuldade maior da sociedade francesa frente ao Islã não é responsabilidade desta, mas deste. É o Islã o problema principal, não a França. Ou a Inglaterra, ou a Alemanha, ou qualquer outro dos muitos países que têm, neste momento, problemas com o Islã.

Mulheres enviadas em sacos são algo horrível. Não dá para relativizar isso, alegando aspectos culturais, étnicos, para uma atitude de opressão, submissão, humilhação, para com uma mulher (pelo menos não neste momento histórico). Não é voluntário, não é escolha individual, não é nada além de humilhação e pretensão arrogante, de homens que alegam “saber” o que a divindade cósmica deseja, e que alegam que esse desejo é enfiar mulheres em sacos.

Eu gostaria que não fosse necessária uma lei que proibisse esse ato ignóbil. Eu preferiria que as vestimentas muçulmanas fossem como as vestimentas de tribos africanas, aborígines australianos, costumes chineses, cartolas inglesas, etc, uma questão puramente cultural, acessória, que pode ser deixada de lado, caso cause problemas em uma situação de convívio entre sociedades.

Mas ao defender mais suas superstições ancestrais, machistas e violentas, contra mulheres e menina indefesas, e tomar esse ponto perfeitamente acessório e desimportante, o que se veste e quando, como “pedra fundamental” dos direitos islâmicos, o Islã torna tudo, em relação ao conflito ocidente/islã, impossível de ser resolvido! Se não podem abrir mão, em circunstâncias especiais, e apenas temporariamente, de um saco de enfiar mulheres, como discutir, e ceder, em questões mais sérias, mais importantes, mais profundas?

Quase todas as culturas, embora tentem proteger suas origens, entendem que isso, a troca de conceitos e visão de mundo, é uma decorrência natural e inevitável do convívio, civilizado, entre povos. Eu aprendo com você, você aprende comigo. Mas não o Islã. Ele, com a pretensão e arrogância das certezas religiosas, não admite que tenha algo a aprender com quem quer que seja, com qualquer outra cultura, com qualquer outra visão de mundo. Ele já “sabe” a verdade, a única verdade, a verdade absoluta, e nada vai mudar isso.

Isso é a origem do problema, não a lei francesa, não o “preconceito” ocidental com o Islã, não a dissolução ou degeneração do ocidente, mas sim o Islã, e de sua visão de mundo que não passou pelo Iluminismo, pela Renascença, pelo processo civilizatório que gerou as sociedades atuais, ocidentais ou não, sua idéia de tolerância e respeito ao individuo, e o mais importante aspecto desse novo modelo de mundo, a separação igreja/estado.

Então, repetindo a pergunta, quando a tolerância acaba, e a omissão perigosa e suicida começa?

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