Religiões são intrinsecamente más?

“O Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP) decidiu na quinta-feira (18/11) que um médico e os pais de uma menina de 13 anos, que morreu por não ter sido submetida a transfusão sanguínea em razão de questões religiosas, devem ser submetidos a júri popular. A morte da garota ocorreu em 22 de julho de 1993, no Hospital São José, em São Vicente.” (Ateus.net)
maos-atadas1-300x300Há algo de intrinsecamente errado com as religiões? É possível que em seu núcleo, em sua base, exista um defeito, um problema, que torne todos os seus desdobramentos comprometidos ou francamente daninhos?

Toda vez que eu afirmo isso, que em meu modo de ver há um defeito básico com a fé religiosa, com as religiões organizadas, as pessoas em geral me respondem que não é bem assim, que há pontos positivos na religião, que muitas vezes elas ajudam outras pessoas, ou fazem o bem, ou se comportam de modo benéfico. Vou pegar como gancho essa notícia recente sobre a decisão do TJ-SP de enviar pais Testemunhas de Jeová a juri popular, acusados pela morte da filha por recusa de transfusão de sangue, para deixar mais claro meu ponto, e porque penso haver algo de intrinsicamente daninho, perigoso, na fé religiosa, de qualquer tipo.

O ponto principal que vejo como problemático na fé, e na maioria das religiões (as exceções, que existem, são irrelevantes para esta análise, uma vez que estas simplesmente não interferem, não fazem diferença e são como se não existissem, como tentarei explicar mais ao final), é justamente o ponto de que mais se orgulham as religiões, a origem de suas verdades, de seus princípios, de suas visões de bem e mal: a origem divina.

“Se uma verdade é verdadeira devido a sua origem, nada se pode fazer, não há espaço para discutir ou flexibilizar”

superpopulAo defender que o certo e errado, o bem e o mal, a ética e a moral derivam de deus, ou são de origem sobrenatural, fora do alcance do ser humano, religiões colocam esses conceitos além da razão, do debate, da discussão e principalmente, do relativismo. Se uma verdade é verdadeira devido a sua origem, nada se pode fazer, não há espaço para discutir ou flexibilizar. Os recentes ataques do Papa Bento ao relativismo moderno, secular, ateu como ele gosta de dizer, é claro quanto a isso. Relativizar, debater, discutir, é ruim, é proibido, e é a fonte de todo mal, segundo ele.

Mas o que acontece com a ética, a moral, os conceitos de bem e mal, se derivam de uma entidade cósmica sobrenatural e divina, criadora de tudo, fonte primária destes conceitos?

Acontece que se tornam absolutos. Se a divindade decide o que é bom e ruim, bem e mal, então é assim e pronto.

Isso seria menos problemático se a tal entidade desse as caras de forma clara, cristalina, evidente, e dissesse de forma clara, cristalina, não elusiva, direta, o que é certo e errado, e o que deseja e o que não deseja. Mas em um universo em que não há evidências deste ser, em que cada religião alega ser a única a saber sobre sua existência, desejos, intenções, conceitos, etc (e alega que todas as outras estão erradas), a coisa se torna perigosa, dramática mesmo.

Quando por acaso o “certo e errado, o bem e o mal” religiosos, se adequam aos conceitos humanos, seculares, humanistas, parece que a religião é benéfica. Organizações de ajuda se formam, para alimentar pobres e famintos, ou dar apoio a viúvas e órfãos. O fato de que poderiam fazer a mesma coisa sem necessidade de que um ente sobrenatural dissesse ser correto, não parece preocupar as religiões ou os sem religião que veem aspectos positivos nestas.

Mas a mesma visão de absoluto, de origem divina, que permeia os que ajudam órfãos, se aplica aos que entendem que a divindade quer coisas ligeiramente distintas. Como perseguir homossexuais, interferir nas políticas de natalidade. Ou permitir que uma menina morra por falta de transfusão.

E não há forma racional ou lógica de discutir isso!

“em rompantes de arrogância, vaidade e orgulho, se consideram melhores por agirem de forma mais fundamentalista para com sua fé”

Na grande maioria dos sites em que a notícia foi publicada, parte dos comentários é de “apoio” aos pais, por parte de outros Testemunhas de Jeová, que se consideram perseguidos, e que, em rompantes de arrogância, vaidade e orgulho, se consideram melhores por agirem de forma mais fundamentalista para com sua fé. A “perseguição” seria a “prova” de que são os escolhidos por deus, conforme as profecias que seus lideres afirmam existir. Os pais da menina, ainda que eu entenda que devem sentir a dor da perda, têm orgulho de terem “ido até o fim” para demonstrar sua fé e sua obediência a deus. E os que cometam, sentem que é isso mesmo, que ir até o fim, que dar um filho “para deus” é a demonstração máxima de fé, um sacrifício humano.

E tem razão, em sua forma distorcida de ver o mundo. Se deus deseja, ordena, se acredita que deus deseja, ordena, não lhe resta mais nada senão obedecer. Abraão não podia discutir com deus e dizer “veja bem, deus, isso não parece razoável, sacrificar meu filho caçula para provar que te amo mais que tudo, é irracional, cruel, violento, insano”. Ele podia apenas obedecer, com toda tristeza do mundo, mas obedecer.

A dor e o absurdo dessa passagem, tanto quanto a Isaac, sacrificado pelo pai (como você se relacionaria com seu pai, depois que este tentasse cortar seu pescoço para deus?), quanto a Abraão, que deve ter se consumido na pior dor e sofrimento que um pai pode experimentar, me enojam sempre, quando leio esse conto cristão.

Em geral quando menciono este episódio bíblico “edificante”, me dizem que é uma alegoria, que é algo de nosso passado tribal, que as coisas mudaram, que ninguém levaria a sério a idéia de matar um filho para mostrar algo a deus, etc, etc. Mas a notícia da morte da menina, e as mortes muito comuns nos EUA devido a essa recusa, é exatamente isso, um sacrifício de um ente querido a um deus insano com exigências absurdas. Não no passado, não em tribos bárbaras do deserto, mas no meio de nossa sociedade moderna, nos dias de hoje.

“é regra dos Testemunhas de Jeová que se a transfusão é feita a sua revelia não há problema. (…) Mas os pais agiram para se proteger, para sua vaidade e orgulho de dizer ‘eu obedeci até o fim, mesmo que minha filha tivesse de morrer’ “

Sacrifiquei minha filha, deixei que morresse, para agradar a deus, e conseguir vida eterna para mim. Para mim, pai e mãe, não para a filha, pois é regra dos Testemunhas de Jeová que se a transfusão é feita a sua revelia não há problema. Bem, eu arriscaria a perder uma vida eterna, se isso salvasse minha filha, ainda mais sabendo que a vida eterna dela estaria segura.

Mas os pais agiram para se proteger, para sua vaidade e orgulho de dizer “eu obedeci até o fim, mesmo que minha filha tivesse de morrer”.  De novo, não no passado remoto, não como alegoria ou parábola, mas concretamente, com a morte de uma menina de 13 anos.

“Se acredita, de verdade, que algo veio da divindade, então não há opções”

flagelação-300x300Voltando a questão da base defeituosa, é isso que causa dano e prejuízo na fé religiosa, a crença em conceitos absolutos, a crença de que se pode saber o que é o bem e o mal a partir de um ser sobrenatural, divino. Se o bem é ajudar o próximo, ótimo, devemos obedecer sem discutir. Se é explodir infiéis, infelizmente, temos de obedecer sem discutir. A imagem ao lado mostra um crente agindo de forma a “agradar” a divindade, com seu sangue e sofrimento.

Muitos também costumam me dizer que exercem sua fé com base na “razão”, que é possível avaliar, analisar, decidir com base no que se avaliou, analisou, etc. Não acho que seja, porque isso não é mais fé religiosa. É relativismo humanista. Se acredita, de verdade, que algo veio da divindade, então não há opções. Se fazer sexo antes de se casar é pecado, mau, errado, então é, e nenhuma análise, avaliação, a partir de culturas, período histórico, novos saberes sobre nós, etc, vai mudar isso.

Não se pode argumentar com o ser cósmico onipotente que criou o universo e determinou, a partir de sua mente perfeita e suprema, o que é ou não é correto. Não faz sentido, não é possível.

“então para que uma religião?”

Por sorte, a grande maioria das pessoas que se diz religiosa, em especial no mundo moderno, ocidental, civilizado, entende isso, ainda que de forma não consciente, e acaba por criar um tipo de religião pessoal, “escolhendo” as partes da crença que se adequam a suas posições e princípios já existentes (e formados por outras maneiras que não a origem divina, como cultura, educação, criação, biologia, discussão, aprendizado, etc), e apenas fingem ser desta ou daquela fé organizada.

São católicos que frequentam a Umbanda, ou o espiritismo, que fazem sexo com a namorada, que abortam, que usam camisinha e tomam pílula, que não perseguem gays, nem veem nada de errado em eles se casarem ou se relacionarem, etc. Esse comportamento “desviante” pode ser encontrado em todas as religiões, desde judeus que comem porco, até, embora seja mais raro, evangélicos que não se comportam como o esperado por sua divindade.

Nesse caso, pergunto, então para que uma religião? Apenas para se sentir parte de um grupo (uma força importante na biologia de primatas gregários)? Por que não “pular” a parte de fingir que se adota uma religião e partir diretamente para os princípios e conceitos formados pela razão, pelo humanismo, pela cultura e educação de cada um?

Essas pessoas, a grande maioria que finge ter uma religião, mas que na verdade adotou os conceitos e princípios de seres humanos, comum a todos inclusive os ateus (ou principalmente os ateus) não está na verdade agindo de forma religiosa. Por isso não causam dano ou prejuízo, que é o assunto deste texto.

“O problema é que, na verdade, são os fundamentalistas que realmente estão adotando de forma coerente e precisa suas religiões”

O problema é que, na verdade, são os fundamentalistas que realmente estão adotando de forma coerente e precisa suas religiões. Quando o pai Testemunha de Jeová determinou que não permitiria a transfusão, ele estava agindo de acordo, coerentemente, com sua crença, que é, em resumo, deus determina o que é certo e errado, e eu não tenho capacidade ou direito de discutir. Se ele acredita que deve sacrificar a filha, como Abraão, então ele nada pode fazer.

Esse é o dano, o principal e maior problema de religiões abraâmicas, de religiões tribais, de deuses tribais absolutos. Ao se afastar, voluntariamente, da razão, a fé religiosa cobra um preço em risco, perigo, efeitos daninhos, aos que a seguem.

Para terminar, como eu disse no começo, existem as exceções, religiões que não alegam ser o certo e errado de origem divina. Como Aristoteles muitos séculos atrás, elas tendem a reconhecer um ser criador, mas que depois de criar, não fez mais nada, se afastou, e é responsabilidade dos seres humanos fazerem suas escolhas, determinarem o certo e errado, conforme sua natureza e razão.

Mas esse tipo de crença dificilmente se adequa ao termo “religião organizada”. Em geral, nem mesmo isso existe, organização, apenas uma vaga filosofia, que é passada de uma pessoa para outra, para os que se sentem bem com essa visão de mundo. São crenças, mas quase não são religiões.

Religiões organizadas alegam, praticamente todas elas, não que exista um deus, isso é um pressuposto, mas que “sabem” o que este deus pretende, deseja, objetiva, espera das pessoas, etc. E que é fonte de toda sabedoria, toda ética, toda moral, toda noção de certo e errado, de bem e mal. E é esse o defeito principal, o perigo fundamental, de toda religião.

Perigo que no caso da pobre menina de 13 anos, foi fatal. Seus pais, que deveriam protegê-la de tudo, acolhê-la, garantir sua segurança, felicidade, vida, decidiram sacrificá-la em nome de um ser imaginário insano.

O trecho a seguir é do livro “Caim”, de José Saramago, que recomendo fortemente, uma bela obra de ficção e de literatura, mas também um texto excelente de análise da fé cristã e de seus paradoxos e absurdos. Abaixo o trecho em que Caim encontra Abraão prestes a sacrificar seu filho Isaac.

Caim dorme em um bosque…

abraão-e-isaac-2-300x232Já as pálpebras tinham começado a pesar-lhe quando uma voz juvenil, de rapaz, o fez sobressaltar, O pai, chamou o moço, e logo uma outra voz, de adulto de certa idade, perguntou, Que queres tu, isaac, Levamos aqui o fogo e a lenha, mas onde está a vítima para o sacrifício, e o pai respondeu, O senhor há-de prover, o senhor há-de encontrar a vítima para o sacrifício. E continuaram a subir a encosta. Ora, enquanto sobem e não sobem, convém saber como isto começou para comprovar uma vez mais que o senhor não é pessoa em quem se possa confiar. Há uns três dias, não mais tarde, tinha ele dito a abraão, pai do rapazito que carrega às costas o molho de lenha, Leva contigo o teu único filho, isaac, a quem tanto queres, vai à região do monte mória e oferece-o em sacrifício a mim sobre um dos montes que eu te indicar. O leitor leu bem, o senhor ordenou a abraão que lhe sacrificasse o próprio filho, com a maior simplicidade o fez, como quem pede um copo de água quando tem sede, o que significa que era costume seu, e muito arraigado. O lógico, o natural, o simplesmente humano seria que abraão tivesse mandado o senhor à merda, mas não foi assim. Na manhã seguinte, o desnaturado pai levantou-se cedo para pôr os arreios no burro, preparou a lenha para o fogo do sacrifício e pôs-se a caminho para o lugar que o senhor lhe indicara, levando consigo dois criados e o seu filho isaac. No terceiro dia da viagem, abraão viu ao longe o lugar referido. Disse então aos criados, Fiquem aqui com o burro que eu vou até lá adiante com o menino, para adorarmos o senhor e depois voltamos para junto de vocês. Quer dizer, além de tão filho da puta como o senhor, abraão era um refinado mentiroso, pronto a enganar qualquer um com a sua língua bífida, que, neste caso, segundo o dicionário privado do narrador desta história, significa traiçoeira, pérfida, aleivosa, desleal e outras lindezas semelhantes. Chegando assim ao lugar de que o senhor lhe tinha falado, abraão construiu um altar e acomodou a lenha por cima dele. Depois atou o filho e colocou-o no altar, deitado sobre a lenha. Acto contínuo, empunhou a faca para sacrificar o pobre rapaz e já se dispunha a cortar-lhe a garganta quando sentiu que alguém lhe segurava o braço, ao mesmo tempo que uma voz gritava, Que vai você fazer, velho malvado, matar o seu próprio filho, queimá-lo, é outra vez a mesma história, começa-se por um cordeiro e acaba-se por assassinar aquele a quem mais se deveria amar, Foi o senhor que o ordenou, foi o senhor que o ordenou, debatia-se abraão, Cale-se, ou quem o mata aqui sou eu, desate já o rapaz, ajoelhe e peça-lhe perdão, Quem é você, Sou caim, sou o anjo que salvou a vida a isaac. Não, não era certo, caim não é nenhum anjo, anjo é este que acabou de pousar com um grande ruído de asas e que começou a declamar como um actor que tivesse ouvido finalmente a sua deixa, Não levantes a mão contra o menino, não lhe faças nenhum mal, pois já vejo que és obediente ao senhor, disposto, por amor dele, a não poupar nem sequer o teu filho único, Chegas tarde, disse caim, se isaac não está morto foi porque eu o impedi. O anjo fez cara de contrição, Sinto muito ter chegado atrasado, mas a culpa não foi minha, quando vinha para cá surgiu-me um problema mecânico na asa direita, não sincronizava com a esquerda, o resultado foram contínuas mudanças de rumo que me desorientavam, na verdade vi-me em papos-de-aranha para chegar aqui, ainda por cima não me tinham explicado bem qual destes montes era o lugar do sacrifício, se cá cheguei foi por um milagre do senhor, Tarde, disse caim

“Caim”, de Saramago

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