Democracia

democraciaO que mostra que uma democracia é forte, estável, plena, não são as eleições. Nem a capacidade de eleger os melhores disponíveis em cada sociedade para cada cargo. Nem mesmo a lisura da votação. Todas essas coisas são importantes, mas acessórias. O que define uma democracia plena, sólida, é o dia seguinte.

A afirmação acima é apenas minha opinião, mas vou tentar defende-la com argumentos que acho que justificam essa afirmação.

Escrevo este texto no dia seguinte de uma eleição para presidente, senador, deputado federal e estadual. Muitos, eu inclusive, estamos desapontados, triste, espantados (bem, nem tão espantado assim no meu caso) e até deprimidos, com alguns dos resultados dessa eleição.

Pessoas daninhas, candidatos corruptos, candidatos que pregaram o ódio em toda campanha, candidatos homofóbicos, candidatos sem nada a oferecer a sociedade, e que, pelo contrário, vão tirar o máximo desta, sem dar nada em troca, foram eleitos, alguns com votação massiva, outros na “esteira” de um grande captador de votos sem nenhuma relevância. Ao mesmo tempo boas pessoas, bons candidatos, ficaram de fora, não conseguiram se eleger ou reeleger, e perdemos muito com isso.

Mas longe de ser um defeito da democracia, de uma democracia sólida e plena, esta é sua principal virtude, a capacidade de absorver  e gerenciar, equilibrar, forças que existem em toda sociedade, para o bem e para o mal, sem se desestruturar no dia seguinte a uma eleição.

Não vou tratar da questão de que, se eu vejo alguns dos candidatos como sendo daninhos e terríveis, sei ao mesmo tempo os eleitores destes veem os meus candidatos da mesma forma.

Essa questão, embora importante, não é o centro de meu argumento no momento. Muitos dos eleitores destas pessoas, que eu vejo como daninhas, e que penso estar certo (com base em argumentos que me parecem sólidos e válidos), pensam que fizeram o correto.

Não é o caso de serem estúpidos ou não saberem votar, ainda que sim, em certos casos, devido a falhas educacionais do país, seja esse o motivo. Mas mesmo escolhas eleitorais estúpidas tem o direito de serem feitas, são legítimas, e cada candidato eleito tem o direito de estar no cargo.

E é esse o centro da questão, a base de meu argumento. Sociedades são formadas por milhões de indivíduos, em uma diversidade enorme de pontos de vista, padrões morais, visão de mundo, etc, etc. Sem possibilidade de se uniformizar, de chegar a um padrão único ou geral. Diversidade será sempre o padrão.

Dessa forma o único modo de ter uma eleição, qualquer eleição, em que apenas candidatos “bons”, pelo menos do meu ponto de vista, eleitos, seria ou impedir que todos os “outros” cidadãos que discordam de mim votassem, ou simplesmente elimina-los.

Já foi assim, muitas vezes em muitas sociedades (ainda é em algumas). Algumas vezes só votavam os que tinham terras. Em outras, apenas os de uma raça ou crença. Em outras, havia apenas um partido e apenas candidatos aprovados por este. A direita e a esquerda, toda ideologia tentou controlar o sistema “eliminando” os diferentes, os que “votavam mal”. Mas isso não é democracia, nem de longe.

Uma democracia se baseia na aceitação das regras previamente combinadas, mesmo que “pessoas ruins” sejam eleitas. Mesmo que as pessoas que “não sabem votar” tenham direito a voto. O que as pessoas cujos candidatos que ganharam fazem no dia seguinte, o que os candidatos ganhadores farão a partir do dia seguinte, e principalmente, o que as pessoas cujos candidatos perderam farão no dia seguinte, e o que os candidatos que perderam farão o dia seguinte, se aceitarão as regras da democracia, a alternância, a perda, ou se tentarão destruir o sistema, e atacar os vencedores, isso define e determina se uma democracia é plena e sólida.

Um caso clássico e atual são as “democracias” que se tentaram implementar em países que deixaram ditaduras (ou que  foram  obrigados a deixa-las), e os resultados do “dia seguinte” nessas sociedades. O Iraque teve seu ditador, sanguinário e cruel, removido a força. E todo esforço se fez para trazer o país e a sociedade para o processo democrático, partidos foram criados, eleições foram marcadas, candidatos se apresentaram, e a população votou.

E no dia seguinte? No dia seguinte as facções que perderam atacaram as que ganharam, com atentados, com violência, com desobediência, e estão nisso até o momento. Xiitas ganham, sunitas atacam e recusam essa vitória. Sunitas ganham, e xiitas recusam essa vitória, e atacam os vencedores.

Essas democracias não sobrevivem ao dia seguinte. Suas sociedades não percorreram o longo caminho que leva a aceitação da derrota (mais que a importância da vitória), a evolução gradual da compreensão de que, para o bem e para o mal, é preciso um sistema que aceita e admite todos os muitos pontos de vista, toda a diversidade que seres humanos apresentam, e que não pode ser eliminada, sem dor e sofrimento de muitos. Na verdade, nem com dor e sofrimento profundo, seres humanos sempre resistem a essa tentativa.

Sim, pessoas daninhas foram eleitas ontem. Pessoas odiosas em alguns casos, equivocadas em outros, mas ao mesmo tempo pessoas boas, decentes, honestas e combativas também foram eleitas.

 democracia2Uma democracia é justamente a capacidade de aceitar ambos, e equilibrar suas ações e forças, de forma que a parte boa impeça a parte má de agir contra uma parcela da população, ou contra toda ela. Porque não existe a possibilidade dessas pessoas deixarem de existir, nem seus eleitores. É assim que é a humanidade, diversa, multifacetada, cada um um indivíduo diferente, até a formas  extremas.

 E não podemos simplesmente eliminar os diferentes, só podemos conviver com eles. E a forma mais eficiente, justa e racional que encontramos de lidar com isso é a democracia. A primeira coisa que radicais de direita gritam, quando perdem, é pelo uso da força militar para “acabar com a bagunça”. A primeira coisa que radicais de esquerda gritam, quando perdem, é pela “revolução para acabar com a burguesia corrupta”. Nenhum deles quer, ou gosta, da democracia, que exige que se aceitem mutuamente. E que aceitem a eventual derrota (a melhor parte da alternância de poder  é justamente habituar as pessoas e grupos a perda eventual).

Um candidato do Rio de Janeiro, violento, homofóbico, quase insano, recebeu milhares de votos. Mas qual a alternativa, eliminar essa pessoa? Ou as que votam nele? Ou observar que no mesmo Rio de Janeiro um candidato que tem lutado pelas minorias e trabalhado para conter a agressão e a homofobia, também foi eleito?

Um candidato a presidente com discurso homofóbico, de ódio, recebeu mais de 400 mil votos, e isso assusta. Mas isso também significa que ele não recebeu nenhum dos 100 milhões de votos que foram para os outros candidatos. Não podemos esperar que esses eleitores desse candidato desapareçam, ou deixem de existir. Também não podemos apenas impedir que votem.

O que podemos fazer é contar com o poder da democracia de receber toda diversidade existente entre indivíduos, seres humanos, e lidar com ela de forma equilibrada e justa. E só é possível fazer isso com uma democracia que possa ser sólida o suficiente para sobreviver ao dia seguinte.

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