Fantasmas, premonições, signos, energia positiva e negativa, etc. Bullshit!

misticismosAgora que tenho sua atenção, gostaria de dizer que embora considere realmente que essas afirmações, esses “fenômenos”, são realmente “bullshit” (excelente expressão inglesa para bobagens diversas), essa não é a melhor, ou mais útil, resposta para a questão. Nem a mais racional ou equilibrada.

Um excelente programa, dos mágicos e céticos Peen&Teller, tem esse nome, mas mesmo eles vão além de simplesmente declarar que algo é bobagem, eles dão o próximo passo, explicam porque consideram dessa forma:  https://en.wikipedia.org/wiki/Penn_%26_Teller:_Bullshit!

 Ao responder com um “bullshit“, as reações do debatedor podem ser várias, mas dificilmente “ah, sim, claro, compreendo, tudo bem, vamos deixar de lado essas bobagens e pronto, passamos a pensar racionalmente!“. Mais provavelmente as respostas serão, “seu idiota de mente fechada” ou “e como explica isso, hein, hein, hein“, e um total fechamento a qualquer possibilidade de explicação, uma reação emotiva, que, mesmo em pessoas bastante céticas, costuma inviabilizar qualquer debate minimamente racional.

 

Nesse sentido uma resposta melhor a alegações sobre fantasmas, espíritos, signos, energias místicas seria, a meu ver, algo próximo a isso: não existem evidências confiáveis que sustentem a realidade destes fenômenos.

 Claro que neste caso também não teremos respostas do tipo, “ah, claro, agora entendi, obrigado, parei de acreditar nessas coisas“! Mas sem a interferência da resposta emocional, haverá espaço para um debate, ou pelo menos uma conversa, em que um dos lados não se sinta automaticamente insultado pela declaração de que tudo em que ele acredita é bobagem, e ainda mantenha a curiosidade para saber porque o outro pensa dessa forma.

 O próximo passo seria explicar porque concluímos dessa forma. Para isso precisamos da boa vontade e da curiosidade do debatedor, porque é um assunto complexo, que depende de grande volume de informação. Não há como tratar assuntos complexos, por exemplo a percepção humana (suas falhas e características), de forma rasteira ou simples, muito menos rápida. O interlocutor terá, necessariamente, de fazer algum esforço, dedicar tempo e atenção, para compreender as explicações, estar minimamente interessado no que temos a dizer.

 E não estou dizendo aceitar, parar de “acreditar” ou algo assim, mas apenas compreender o ponto de vista, os argumentos, a base de conclusão da ciência e do ceticismo quanto a estes fenômenos. É tudo que podemos esperar ou desejar, que o “outro lado” compreenda como se chega a uma conclusão baseada em evidências e pensamento racional.

 O que vem em seguida ainda é parecido, coisas como “então como explica isso, hein?“, e “há tantas coisas neste universo que não sabemose o campeão “não tenha a mente tão fechada!”. Mas sem a carga emocional negativa de ter ouvido que “isso em que acredita é tudo bobagem“, fica mais fácil explicar, e ser compreendido, o que embasa esse posicionamento cético-racional.

 Gatilho de ansiedade

 Em geral acho interessante começar por aspectos básicos de nossa mente, de nossa psicologia comportamental, etc, como o gatilho de ansiedade, ou gatilho do medo, gerado pelo conhecido reflexo de “luta ou fuga“.

 Todo mundo tem “sensações“, “premonições“, palpites, simplesmente porque foi assim que nossa mente evoluiu, que nossa espécie, como muitas outras, evoluiu. Precisamos desses “palpites” internos para caminhar em um ambiente hostil e perigoso como aquele em que vivemos e evoluimos. Nossa “intuição” são palpites educados, que podem nos direcionar, embora dependam de comprovação confiável posterior.

 Cada espécie, dependendo de muitos fatores, como por exemplo ser caça ou presa, tem gatilhos, disparos de luta e fuga em níveis diferentes. Já vimos em filmes como é relativamente seguro se aproximar de leões que descansam, se estiverem bem alimentados, e não houver fêmeas no cio. Por outro lado se aproximar de cervos na mata é bem mais difícil, o gatilho deles, como presas, dispara a qualquer coisa, gerando alto nível de “falsos positivos” (vezes em que o gatilho dispara mas nenhum perigo real existe).

 O mecanismo de “lutar ou fugiré um tanto ditatorial, e não permite que se pensa muito sobre o assunto. Um ruído no mato alto ao lado pode ser apenas um galho que caiu, ou um predador, se pensar muito sobre isso, e for um predador, morreu. Se por outro lado correr como louco, e for um galho apenas, só perdeu um pouco de dignidade, mas fica vivo. Por isso, quanto mais sensível o gatilho, mais falsos positivos, mas menor risco de vida.

 Até ai tudo bem, temos nossas “premonições“, verificamos que nada ocorre na maior parte das vezes, e seguimos em frente. Mas outro aspecto de nossa mente, o viés de confirmação e o famoso “conte os acertos, ignore os erros” pode causar um efeito “puxa, eu prevejo coisas!“, simplesmente se “lembrando” das vezes em que um gatilho de ansiedade disparou, e algo realmente aconteceu, e “esquecendo” quando nada ocorreu.

 Isso é especialmente recorrente quando se lida com números grandes, universos de eventos muito amplos e distantes dos que existiram durante nossa evolução. Como jogar em loterias ou apostar em cassinos.

 Um excelente texto de Michael Shermer pode explicar esse ponto melhor:

http://www.bulevoador.com.br/2011/02/milagres-nas-ruas-da-probabilidade/

 Assim, é preciso muito cuidado para não ser enganado por nossa mente primitiva (em relação a estatísticas e probabilidades) ao analisar os “acertos” de nossas premonições, sensações sobre “algo“, etc, pois podem ser simplesmente efeitos da forma como nosso cérebro funciona (ou não funciona).

 Depois de explicar as questões mais básicas de processos cognitivos, e falhas cognitivas, podemos focar em alegações de fenômenos mais específicas, e usar o esclarecimento sobre nossa mente como elemento dos argumentos.

 Fantasmas e espíritos

 Provavelmente desde o início, desde que a mente hominídea se formou com algum grau de complexidade e sofisticação, que a permitiu compreender fenômenos temporais, causa e efeito, e abstrações, histórias sobre coisas inexplicáveis surgiram, e potenciais explicações também.

 Uma das mais antigas é sobre espíritos, fantamas, seres invisíveis e sobrenaturais, que existiam em nosso mundo, sem serem detectados de forma concreta. Isso porque como lidamos com entidades, seres com vontade e mente, todo o tempo, e evoluímos para interpretar essas mentes, nada mais natural que explicar eventos naturais também dessa forma, na falta de conhecimentos mais profundos sobre a natureza.

 Então podemos imaginar em nosso passado, digamos, um antepassado voltando para casa, atrasado, a noite, tendo de passar talvez por um pântano, ou área alagada, local já com histórias estranhas, em um tempo em que o perigo, real e imaginário, era constante, predadores, salteadores, etc.

 Ele caminha apressado, com medo, no escuro, uma Lua a iluminar o pântano. Sua mente cria sons e ruídos, que mistura com sons e ruídos naturais, e histórias estranhas contadas por gerações vem a sua mente.

 Subitamente ele algo“, uma luz azulada/amarelada, um vulto luminescente, translúcido, que se move, muda de forma, cresce e diminui a sua frente. O medo, agora em níveis altíssimos, mais a natural pareidolia do cérebro, o faz ver formas conhecidas, rostos, talvez deformados, garras, dentes. A forma “ruge” ou fala com ele, ameaça ou chama. Ele dá alguns passos para trás, a forma avança. Ele corre, a forma corre e o persegue, apavorado ele cai, e a forma, tão subitamente como apareceu, esvai no ar, desaparece.

 Quando nosso antepassado consegue finalmente chegar a tribo, aldeia ou cidade, o que ele vai contar para a família e amigos? Como explicar o que viu? Talvez com um racional “bem, não sei o que era, não posso apresentar uma explicação razoável, melhor suspender qualquer conclusão até termos mais dados“?

 

fogofatuo

Fogo fátuo em rio de MT

Ou uma emocionante história de fantasmas, espíritos, coisa que todos pensamos ao ler o relato?

Mesmo hoje em dia são poucos os que conhecem o suficiente sobre pântanos, gases em decomposição, combustão natural, etc, para dar a explicação correta, fogo fátuo – https://en.wikipedia.org/wiki/Will-o%27-the-wisp

No Brasil, o fogo fátuo gerou várias de nossas lendas, inclusive o Boitátá.

 Levou muito tempo para entendermos que adotar a posição mais cautelosa, aguardar por mais dados e informação antes de criar explicações, é mais segura, confiável, racional. Sherlock Holmes já ensinava, É um erro capital teorizar antes de se ter os dados. Invariavel­mente começamos a torcer os fatos para se ajustarem à teoria, em vez de ser a teoria a ajustar-se aos fatos.”

 Assim, não existem evidências de existência de fantasmas ou espíritos, que não possam ser bem explicadas por elementos naturais, falhas de percepção humanas, e desejo de acreditar. E se alguns fenômenos ainda estão “sem explicação“, o melhor é suspender a conclusão, em vez de adotar qualquer explicação confortável, desejada, conveniente, mas sem evidências. Relatos pessoas, pessoas, boas e honestas que “juram” que conversaram com entes queridos, nada sustenta, como evidência confiável, a realidade dessa existência. Pode ser suficiente para a crença pessoal, mas não para uma conclusão, positiva, racional

 Essa forma racional e cética de pensar em geral adia a conclusão até que novos dados e evidências confiáveis surjam. E invariavelmente, estas tem mostrado que não passam de eventos naturais, ilusões da mente, e enganos propositais, e nunca, nem uma vez, algo realmente sobrenatural.

 Uma ferramenta importante para analisar explicações é a Navalha de Ockam, que em geral não é bem compreendida pelos que crêem em algo:

 https://homeroottoni.wordpress.com/2012/08/11/a-afiada-navalha-da-ciencia/

 Signo Astrologicos

 

Horóscopo realista.:-)

Horóscopo realista.:-)

É quase doloroso para mim debater astrologia. Dada a infantilidade de suas alegações, a absoluta falta de sentido ou evidências, e a clara natureza pseudocientífica que sua prática apresenta, eu pensaria que ninguém realmente discutiria isso seriamente, muito menos acreditaria em suas premissas, e alegações.

Infelizmente, estou errado, muito errado.

Mesmo assim, apenas responder com “astrologia, signos, é bullshit” também não é produtivo ou útil. Ainda que seja muito difícil argumentar com relação a algo tão elusivo, sutil e sem sentido, é mais eficiente colocar a resposta em formato isento: não existem evidências de que seja real a influência de astros em nossas vidas, ou que se possa ler informações sobre seres humanos, em padrões aleatórios de estrelas e galáxias.

 As evidências contrárias a Astrologia são tantas, que o mais difícil é saber por onde começar. Além disso, não existe “uma” astrologia, mas muitas, E não apenas as evidentes, como signos chineses versus signos zodiacais, mas mesmo dentro da astrologia zodiacal correntes, subcorrentes, versões, etc, em uma infinidade de visões, tornam quase impossível apresentar argumentos que se apliquem de forma geral.

 Isso torna complicado refutar a astrologia, não porque tenha solidez ou seja de alguma forma real, mas simplesmente porque é sempre possível “escapar” de um beco sem saída por uma porta lateral, um “ad hoc“.

 Assim, a forma mais racional e eficiente de refutar a astrologia e signos é primeiro entender qual astrologia e que tipo de alegações sobre signos a versão do debatedor faz. E partir dessas alegações para os argumentos e evidências contrários. Ou ficaremos eternamente perdido no pântano do “mas essa não é a verdadeira astrologia“, pulando de uma alegação especial para outra.

 Como argumento base, entretanto, é bom considerar que, mesmo entre astrólogos de uma mesma versão de astrologia, os resultados que apresentam, para a mesma pessoa, mesma data de nascimento, mesmo tudo, são conflitantes entre si.

 Isso pode ser explicado por um deles e apenas um deles ter a “versão real” do mapa astral (e temos o problema de como saber qual é, se todos alegam estar certos), e todos os outros estarem errado, ou mais simplesmente, eles, todos, não fazem ideia do que estão falando.

 Energias místicas

 

Está tudo em nossa mente!

Está tudo em nossa mente!

Um dos aspectos mais tradicionais das pseudociências é o uso elusivo e sutil de termos da ciência real, além do uso espúrio de conceitos bem estabelecidos. Nenhum desses termos e conceitos é mais mal tratado, mais distorcido, mais erroneamente apresentado do que “energia“, só perdendo talvez para o pobre termo “teoria“.

Cientificamente o termo energia é muito bem definido, precisamente definido, e deve ser utilizado dentro deste rígido contexto, sob pena de perder completamente o significado. Energia, ainda que seja uma questão complexa para definir de forma simples, é a “capacidade de produzir trabalho“.

 É uma propriedade de objetos materiais capaz de ser transferida para outros objetos, mas não destruída.

 Para saber mais, de forma mais profunda e precisa, sobre energia, existe a termodinâmica, que estuda quase exclusivamente a mesma. E ainda que não se saiba com precisão o que “é” energia, sabemos muito bem o que “não é“.

 Usado de formas mais imprecisas, como figura de linguagem, temos “ele acordou com muita energia” ou “a energia na sala de concerto era ótimae ainda “foi um discurso cheio de energia“. Nada disso éenergia” de verdade, ou energia conforme o termo é definido cientificamente. E não pode ser usado ou intercambiado em alegações que se pretendam científicas e confiáveis.

 Assim, energia positiva e negativa, no sentido esotérico dado ao termo, se encaixa nos usos imprecisos, como a energia de um discurso, avaliação subjetiva, psicológica, que não afeta o mundo física concretamente.

 Da mesma forma que o “pensamento positivo” ou “negativo“, as “energias positivas e negativas” são construtos mentais, que não tem mais realidade física que ‘bondade”  ou “vigor“. Não são mensuráveis, não afetam objetos materiais, e se afetam coisas imateriais, como a mente humana, o fazem da mesma forma que qualquer outro “meme” ou ideia. Pensar muito, positivamente, sobre algo que se deseja, não vai trazer esse algo por meiossobrenaturais“, apenas vai disparar sua percepção seletiva, e verá “sinais” de que está no caminho certo por toda parte.

 Da mesma forma como mulheres grávidas parecem ver outras mulheres grávidas em todo lugar, ou alguém pensando em comprar um determinado modelo de carro que passa ver esse modelo por todas as ruas.

 Uma pessoas deprimida e pessimista pode ganhar na Megasenna. Uma pessoa “para cima“, otimista, de bem com a vida pode bater o carro e morrer. São situações aleatórias, não afetadas por energias místicas de qualquer tipo.

 Mas quem crê, sempre encontrara motivos, explicações especiais, “ad hocs“, que expliquem porque falhou, de forma que seja, “na verdade“, um acerto, só que diferente. Se seu signo deu errado (e é difícil de que se reconheça isso, devido ao “conte os acertos, ignore os erros” de nossa mente), deve ser por causa do ascendente. Se mesmo com a ascendente não bate, deve ser influência de Saturno. Se ainda está incorreto, Júpiter. Ainda errado? Não se preocupe, as variáveis de mapas astrais são tantas, que em algum momento algo vai bater, vai se encaixar.

 Exatamente como se fosse o acaso agindo.

 Há um ditado esotérico, relacionado ao livro e filme (medonhos) O Segredo, e a toda cultura New Age (como o filme Que %¨%$#$ Somos Nós, um horror de desonestidade e cara de pau), que diz o seguinte:

No final tudo dá certo. Se ainda não deu, é porque não é o final!

 Ou seja, não é preciso evidências, ou argumentos, ou conclusões confiáveis, para demonstrar a realidade de coisas sobrenaturais, como energias místicas. Todo e qualquer evento é, automaticamente, transformado em uma evidência.:- )

 O pensamento racional, cético, científico por outro lado é mais difícil, mais exigente, muitas vezes é menos confortante e até algumas vezes doloroso. Mas nos leva mais perto da realidade, do real, do entendimento de nosso Universo e das forças que atuam (ou não) nele.

 Abandonar uma ilusão confortante por uma verdade crua exige certa fortaleza, quem nem todo mundo tem ou está disposto a suportar.

 Conclusão

 Fantasmas, espíritos, signos, energias, etc, são bulshit. Se algum elemento destes fenômenos parece ser real, então devemos analisar, estudar, até entender sua natureza, e não apenas acreditar.

 Mas é preciso entender, muitos desses fenômenos, dessas alegações, já foram estudadas, entendidas, e sabemos muito sobre a mente humana, sobre as ilusões e processos que a guiam, e já podemos abandonar a maior parte dessas superstições e pseudo-ciências.

Até pelo simples fato de que o Universo tem coisas demais, fantásticas e reais, para serem ainda estudadas e compreendidas, para perdermos tempo com bullshit.:- )

 

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Um comentário sobre “Fantasmas, premonições, signos, energia positiva e negativa, etc. Bullshit!

  1. Excelente texto, gostei muito mesmo, pura verdade. O problema sãos as pessoas que mesmo com todas essas explicações racionais persistem no erro. Ah o conformismo, algumas pessoas sentem medo de ver o lado realista e real do mundo, para elas é algo obscuro, na verdade a realidade é muito obscura. Muito bom seu blog.

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