Relato anedótico versus relato estatístico

Relato-AnedóticoUm dos aspectos mais difíceis de ser compreendido pelo homem comum quanto ao rigor exigido pelo método científico e pela ciência para validar um conhecimento, fenômeno ou alegação, é a questão do relato anedótico, pessoal, a experiência pessoal como elemento de convicção e conclusão.

Quando textos são apresentados na Internet para explicar porque a ciência não reconhece uma pseudociência, uma alegação extraordinária ou um tratamento alternativo, dezenas de comentários contrariados são enviados. Uma grande maioria usa casos pessoais como “prova” de que o texto está enganado, que “aquilo” funciona sim, que tem certeza disto, que o autor está “comprado pelas indústrias de medicamentos”, etc.

“Relato anedótico é um relato, evento ou alegação única, singular, pessoal”

Variações são apresentadas, como “é uma questão de livre escolha”, ou – um exemplo tirado da homeopatia – “funcionou até para meu cachorro, como pode não ser real?” Continuar lendo

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A Girafa, o nervo laríngeo e o design pouco inteligente

girafa31Inspirado pelo excelente post do amigo Adelino Santi Júnior,O Luxo da Incompetência, pensei em escrever um artigo que apresentasse um “defeito de projeto” do criador, o meu preferido: o nervo laríngeo, que controla nossa laringe e conseqüentemente a fala.

Evidentemente que não penso que seja mesmo um “erro de projeto”, já que não há um projeto envolvido. Mas, se consideramos o argumento criacionista, que afirma “ver” deus e seu trabalho na perfeição dos “projetos” naturais, temos de manter a coerência e também “ver” o erro quando o projeto falha ou é mau executado.

Vamos então ao nervo laríngeo recorrente. Ele é um nervo craniano que parte diretamente do cérebro e não da medula, como é mais comum. É uma ramificação do nervo “vago”. O nervo vago tem este nome porque ele “vagueia” pelo corpo e é utilizado em diversas funções. Continuar lendo

O que justifica protestar contra a Homeopatia?

Hepar

A atualidade da Homeopatia é verificada nestes dois frascos do século XIX de Hepar Sulph. Nada mudou de lá pra cá, nem na técnica nem no efeito.

Muitas críticas ao movimento para demonstrar a ineficácia da homeopatia parecem estar centrados no “direito de acreditar” das pessoas, e no fato de céticos (e a ciência) serem “chatos estraga prazeres”. Frases como “se não faz mal algum, porque a gritaria?” ou “homeopatia pode ser inócua, mas faz bem pra algumas pessoas que estão gastando o seu próprio dinheiro com isso”. Ambas as frases retiradas de comentários feitos em notícias que criticam a homeopatia, entre muitas outras de mesmo teor.

Mas nada pode estar mais longe da verdade. E nem é difícil entender isso.

Primeiramente, homeopatia não é uma “crença”, mas um conjunto de alegações, que formam uma hipótese concreta, material, que pode ser testada. Não existem movimentos céticos, ou científicos, para demonstrar, por exemplo, que as “pílulas do Frei Galvão” não funcionam. O “mecanismo de ação” das pílulas é claramente mágico, místico, sobrenatural, e é uma questão de fé. É perigoso, sim, como a homeopatia, e ambos envolvem a possibilidade de deixar tratamentos reais, mas é fé, crença, e todos tem direito a praticá-las, não importa o quão irreais ou absurdas. Podemos alertar, mas ninguém realmente criaria um “estudo controlado” para testar as bolinhas de papel.

Superstições diversas, simpatias, rezas, etc, tudo é mágica, e é direito pessoal acreditar ou não. Também não há risco (não muito) de sistemas de saúde implementarem “simpatias” nos postos de saúde. Continuar lendo

Mistérios inexplicáveis versus mistérios não explicados

homero-11Quase todo debate resulta em algo produtivo ou relevante, mesmo quando as partes acabam sem concordar uma com a outra. O fato de debaterem, exporem suas visões, pode ser suficiente para produzir um efeito positivo em ambos os lados e melhorar, pelo menos, a compreensão que um tem do outro.

Quase. Existem, entretanto, tipos de debate que não levam a lugar algum, não resultam em nada positivo, e às vezes contribuem para piorar as coisas. Por exemplo, debates circulares, baseados em argumentos circulares, raramente ajudam ou esclarecem algo.

Outro problema comum em debates é quando se iniciam com um dos lados, ou ambos, com idéias preconcebidas, falsas, sobre a posição do outro. Continuar lendo

Tudo é possível! Mas, quão provável é cada possibilidade?

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Quimera é uma figura mística caracterizada por uma aparência híbrida de dois ou mais animais e a capacidade de lançar fogo pelas narinas, sendo portanto, uma fera ou besta mitológica.

Tudo é possível. Sério, eu estou defendendo que tudo, mesmo, é possível, até mesmo que deuses existam, ou unicórnios, ou fadas e mesmo URI, o Unicórnio Rosa Invisível. E não estou brincando ou sendo sarcástico.
E não apenas eu penso assim, a ciência, os cientistas e os céticos também pensam dessa forma. Na verdade, apesar da constante acusação de ?falta de imaginação?, teimosia, mente fechada e incapacidade de pensar fora da caixa contra os cientistas, essa posição é a base da ciência que se considere, inicialmente, que tudo é possível.
Mas como isso pode ser? Como se criou a sensação de que a ciência lida com certezas e que defende impossibilidades? Que sua posição é de rigor contra ?os absurdos? da imaginação? E como eu posso defender algo tão absurdo assim, que tudo é possível? Continuar lendo

Como o bom senso nos atrapalha na compreensão da ciência e do universo

Bom Senso em pílulas

Bom senso – Wikipedia: define a capacidade média que uma pessoa possui, ou deveria possuir, de adequar regras e costumes à determinadas realidades, e assim poder fazer bons julgamentos e escolhas.

 Bom senso – Discurso do Método – Descartes: é a capacidade de bem julgar e de distinguir o verdadeiro do falso que é propriamente o que denominamos bom senso ou razão, é naturalmente igual em todos os homens.

É sempre bom ter bom senso, ainda que como notou Descartes, parece ser a coisa mais bem distribuída do mundo, todo mundo pensa ter o bastante. Mas devido a forma como o bom senso se formou, a partir de pressões evolutivas em um ambiente natural relativamente simples, ele pode atrapalhar nossa compreensão da realidade, em especial aquela mais profunda descoberta pela ciência.

Muitas das ferramentas cognitivas que a evolução nos dotou tem essa dificuldade básica, servem a um propósito limitado, nos permitir sobreviver melhor que os concorrentes e se defender do ambiente. Nessa função, o bom senso nos ajudou muito e podemos notar que ainda hoje faz um bom trabalho. Continuar lendo

Como sabemos o que sabemos

Todos parecem concordar que falta educação científica em todos os níveis escolares, e que a falta dessa educação afeta todas as parcelas da população, e tem efeitos danosos nas escolhas que as sociedades fazem. Mas outro problema com a educação científica, mesmo quando ela está presente, é o foco, o que se ensina nesse sentido.

Parece que este é sempre o resultado do esforço da investigação científica, e quase nunca o processo ou o caminho para esse resultado. Isso faz com que mesmo quem tem acesso ao conhecimento científico receba apenas quadros prontos, verdades prontas do tipo “isso é assim, aquilo é assado”.

Mas a pergunta mais interessante, mais instigante, mais desafiadora é: como sabemos que é isso ou aquilo, assim ou assado? Como sabemos o que sabemos?

Isso fica bem claro em um tipo de comentário de leitores de notícias sobre ciência, em especial sobre novas descobertas da paleontologia e dos fósseis. É algo nesse padrão:

“Ah, esses cientistas querem sempre nos enganar, pegam um dente cariado qualquer do chão e ficam falando que era isso era, aquilo, fazia isso, fazia aquilo, como eles podem saber disso tudo? Charlatões! Eu não caio nessa!”. Continuar lendo