Religiões são intrinsecamente más?

“O Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP) decidiu na quinta-feira (18/11) que um médico e os pais de uma menina de 13 anos, que morreu por não ter sido submetida a transfusão sanguínea em razão de questões religiosas, devem ser submetidos a júri popular. A morte da garota ocorreu em 22 de julho de 1993, no Hospital São José, em São Vicente.” (Ateus.net)
maos-atadas1-300x300Há algo de intrinsecamente errado com as religiões? É possível que em seu núcleo, em sua base, exista um defeito, um problema, que torne todos os seus desdobramentos comprometidos ou francamente daninhos?

Toda vez que eu afirmo isso, que em meu modo de ver há um defeito básico com a fé religiosa, com as religiões organizadas, as pessoas em geral me respondem que não é bem assim, que há pontos positivos na religião, que muitas vezes elas ajudam outras pessoas, ou fazem o bem, ou se comportam de modo benéfico. Vou pegar como gancho essa notícia recente sobre a decisão do TJ-SP de enviar pais Testemunhas de Jeová a juri popular, acusados pela morte da filha por recusa de transfusão de sangue, para deixar mais claro meu ponto, e porque penso haver algo de intrinsicamente daninho, perigoso, na fé religiosa, de qualquer tipo. Continuar lendo

O que justifica protestar contra a Homeopatia?

Hepar

A atualidade da Homeopatia é verificada nestes dois frascos do século XIX de Hepar Sulph. Nada mudou de lá pra cá, nem na técnica nem no efeito.

Muitas críticas ao movimento para demonstrar a ineficácia da homeopatia parecem estar centrados no “direito de acreditar” das pessoas, e no fato de céticos (e a ciência) serem “chatos estraga prazeres”. Frases como “se não faz mal algum, porque a gritaria?” ou “homeopatia pode ser inócua, mas faz bem pra algumas pessoas que estão gastando o seu próprio dinheiro com isso”. Ambas as frases retiradas de comentários feitos em notícias que criticam a homeopatia, entre muitas outras de mesmo teor.

Mas nada pode estar mais longe da verdade. E nem é difícil entender isso.

Primeiramente, homeopatia não é uma “crença”, mas um conjunto de alegações, que formam uma hipótese concreta, material, que pode ser testada. Não existem movimentos céticos, ou científicos, para demonstrar, por exemplo, que as “pílulas do Frei Galvão” não funcionam. O “mecanismo de ação” das pílulas é claramente mágico, místico, sobrenatural, e é uma questão de fé. É perigoso, sim, como a homeopatia, e ambos envolvem a possibilidade de deixar tratamentos reais, mas é fé, crença, e todos tem direito a praticá-las, não importa o quão irreais ou absurdas. Podemos alertar, mas ninguém realmente criaria um “estudo controlado” para testar as bolinhas de papel.

Superstições diversas, simpatias, rezas, etc, tudo é mágica, e é direito pessoal acreditar ou não. Também não há risco (não muito) de sistemas de saúde implementarem “simpatias” nos postos de saúde. Continuar lendo

A França e o “saco de enfiar mulheres”

Burka-200x114A França proibiu o uso do véu por mulheres muçulmanas em locais públicos. Na verdade, proibiu o uso da burca, o famigerado “saco de enfiar mulheres” da cultura islâmica, pelo menos de parte dela, em locais públicos.

Essa proibição tem despertado críticas, muitas críticas, não apenas dos islâmicos afetados pela proibição (os homens, mais que as mulheres, que são quem tem voz ativa na comunidade islâmica), mas também, ou principalmente, de organizações ocidentais, de todas as nacionalidades, incomodadas com o “autoritarismo” da medida.

Confesso que entendo perfeitamente essa reação, pois eu mesmo “sinto” que há algo ruim em proibir uma pessoa de se vestir, ou agir, como deseja, em especial quando isso só deveria afetar a ela mesma.

Mas há algo mais nessa questão, algo que parece ser deixado de lado nessas críticas, esquecido por todos os críticos, e demorou para que eu mesmo percebesse esse aspecto. Continuar lendo

Mistérios inexplicáveis versus mistérios não explicados

homero-11Quase todo debate resulta em algo produtivo ou relevante, mesmo quando as partes acabam sem concordar uma com a outra. O fato de debaterem, exporem suas visões, pode ser suficiente para produzir um efeito positivo em ambos os lados e melhorar, pelo menos, a compreensão que um tem do outro.

Quase. Existem, entretanto, tipos de debate que não levam a lugar algum, não resultam em nada positivo, e às vezes contribuem para piorar as coisas. Por exemplo, debates circulares, baseados em argumentos circulares, raramente ajudam ou esclarecem algo.

Outro problema comum em debates é quando se iniciam com um dos lados, ou ambos, com idéias preconcebidas, falsas, sobre a posição do outro. Continuar lendo

Tudo é possível! Mas, quão provável é cada possibilidade?

chimera3

Quimera é uma figura mística caracterizada por uma aparência híbrida de dois ou mais animais e a capacidade de lançar fogo pelas narinas, sendo portanto, uma fera ou besta mitológica.

Tudo é possível. Sério, eu estou defendendo que tudo, mesmo, é possível, até mesmo que deuses existam, ou unicórnios, ou fadas e mesmo URI, o Unicórnio Rosa Invisível. E não estou brincando ou sendo sarcástico.
E não apenas eu penso assim, a ciência, os cientistas e os céticos também pensam dessa forma. Na verdade, apesar da constante acusação de ?falta de imaginação?, teimosia, mente fechada e incapacidade de pensar fora da caixa contra os cientistas, essa posição é a base da ciência que se considere, inicialmente, que tudo é possível.
Mas como isso pode ser? Como se criou a sensação de que a ciência lida com certezas e que defende impossibilidades? Que sua posição é de rigor contra ?os absurdos? da imaginação? E como eu posso defender algo tão absurdo assim, que tudo é possível? Continuar lendo

Como o bom senso nos atrapalha na compreensão da ciência e do universo

Bom Senso em pílulas

Bom senso – Wikipedia: define a capacidade média que uma pessoa possui, ou deveria possuir, de adequar regras e costumes à determinadas realidades, e assim poder fazer bons julgamentos e escolhas.

 Bom senso – Discurso do Método – Descartes: é a capacidade de bem julgar e de distinguir o verdadeiro do falso que é propriamente o que denominamos bom senso ou razão, é naturalmente igual em todos os homens.

É sempre bom ter bom senso, ainda que como notou Descartes, parece ser a coisa mais bem distribuída do mundo, todo mundo pensa ter o bastante. Mas devido a forma como o bom senso se formou, a partir de pressões evolutivas em um ambiente natural relativamente simples, ele pode atrapalhar nossa compreensão da realidade, em especial aquela mais profunda descoberta pela ciência.

Muitas das ferramentas cognitivas que a evolução nos dotou tem essa dificuldade básica, servem a um propósito limitado, nos permitir sobreviver melhor que os concorrentes e se defender do ambiente. Nessa função, o bom senso nos ajudou muito e podemos notar que ainda hoje faz um bom trabalho. Continuar lendo

Como sabemos o que sabemos

Todos parecem concordar que falta educação científica em todos os níveis escolares, e que a falta dessa educação afeta todas as parcelas da população, e tem efeitos danosos nas escolhas que as sociedades fazem. Mas outro problema com a educação científica, mesmo quando ela está presente, é o foco, o que se ensina nesse sentido.

Parece que este é sempre o resultado do esforço da investigação científica, e quase nunca o processo ou o caminho para esse resultado. Isso faz com que mesmo quem tem acesso ao conhecimento científico receba apenas quadros prontos, verdades prontas do tipo “isso é assim, aquilo é assado”.

Mas a pergunta mais interessante, mais instigante, mais desafiadora é: como sabemos que é isso ou aquilo, assim ou assado? Como sabemos o que sabemos?

Isso fica bem claro em um tipo de comentário de leitores de notícias sobre ciência, em especial sobre novas descobertas da paleontologia e dos fósseis. É algo nesse padrão:

“Ah, esses cientistas querem sempre nos enganar, pegam um dente cariado qualquer do chão e ficam falando que era isso era, aquilo, fazia isso, fazia aquilo, como eles podem saber disso tudo? Charlatões! Eu não caio nessa!”. Continuar lendo